MÁQUINA TADEUSZ KANTOR



Foi inaugurada recentemente em São Paulo uma exposição imperdível, dedicada à obra de um dos maiores artistas do século XX, o encenador polonês Tadeusz Kantor (1915-1990). Se você nunca ouviu falar nele, não se preocupe: fora da restrita esfera das artes cênicas, pouca gente teve essa felicidade. Pois saiba que, além de ter sido um destacável artista plástico, criador de pinturas, performances e happenings antológicos, a importância de Tadeusz Kantor para a história do teatro equivale à de nomes como, por exemplo, Bertolt Brecht ou Constantin Stanislavski. 




Em relação ao teatro contemporâneo, a influência de sua obra é capital. Sendo 2015 o ano do centenário de seu nascimento, estão previstos uma série de eventos dedicados à sua impagável figura, espalhados por cidades como Edimburgo, Quioto, Los Angeles, Nova York, Pequim e Toulouse. Coube a São Paulo um papel especial nessa efeméride, ao abrigar a exposição Máquina Tadeusz Kantor, que conta com boa parte do acervo pertencente à Cricoteka, a instituição responsável em zelar pelo espólio do artista, sediada na Cracóvia. Em cartaz no Sesc Consolação, Máquina Tadeusz Kantor permanecerá na capital paulista até 14 de novembro, uma oportunidade única para que o público em geral conheça um pouco do universo kantoriano (sim, seu nome já está adjetivado).






Nascido em uma pequena cidade chamada Wielopole, foi na Cracóvia que Tadeusz Kantor estudou e fez carreira como artista de vanguarda, no melhor sentido do termo. Lá ele se formou em belas-artes e se iniciou no teatro, criando um grupo clandestino no período mais agudo da ocupação nazista, responsável pelos espetáculos Balladyna (1942) e O Retorno de Ulisses (1944). Terminada a guerra, Kantor trabalhou alguns anos como cenógrafo autônomo, até que, em 1955, fundou o Teatro Cricot 2, grupo com o qual entraria para a história. Com ele, Kantor deu à luz algumas obras memoráveis, umas mais outras menos ligadas ao teatro propriamente dito, não obstante sua repercussão ainda se circunscrever às fronteiras da Polônia e adjacências. São dessa fase os espetáculos No Pequeno Solar (1961) e O Armário (1966), além de certos happenings como A Carta (1967) e A Lição de Anatomia Segundo Rembrandt (1968). Todos eles, vale lembrar, devidamente contemplados na exposição, por meio de objetos, fotos ou performances realizadas por atores nos corredores da mostra.






Tudo mudou a partir de 1975, quando Tadeusz Kantor lançou A Classe Morta, sem dúvida um dos espetáculos mais importantes do século XX. Ao levá-lo em excursão com o Cricot 2 para Londres e outros centros do mundo capitalista, Kantor adquiriu renome internacional, deixando público e crítica ocidentais simplesmente embasbacados com a singularidade de seu teatro. Valendo-se de uma gama ampla de elementos cênicos, farta na utilização de objetos e bonecos sem, contudo, abdicar dos atores de carne e osso, o que se apresentou nesse espetáculo era algo que se poderia definir, para efeitos didáticos, como um ready-made vivo. Sem conferir nenhuma primazia ao texto, igualado, em grau de importância, a todos os outros itens da cena, a poética de Kantor se tornaria, a partir de então, um dos pilares daquilo que, em 1999, o teórico alemão Hans-Thies Lehmann designou de teatro pós-dramático, conceito polêmico mas bastante em voga no panorama teatral paulistano.






De todo modo, depois de A Classe Morta seguiram-se outros espetáculos marcantes, que sedimentaram ainda mais o prestígio de Tadeuzs Kantor no ocidente. Semelhante sucesso, como não poderia deixar de ser, jogou luz sobre os trabalhos anteriores, que também ganharam seu devido quinhão de reconhecimento, ainda que extemporâneo. Sendo Máquina Tadeusz Kantor uma exposição esmerada, nela se encontram objetos ligados a essas duas “fases”, além de pinturas e desenhos deixados pelo artista polonês, quase tudo exposto dentro de uma enorme estrutura de metal construída no ginásio do Sesc Consolação. Fora desse complexo, uma das principais atrações é a Máquina de Aniquilamento, objeto criado para a performance O Louco e a Freira, de 1963, uma parafernália de cadeiras velhas que se movem empilhadas sobre uma pequena plataforma de madeira. Do período posterior a A Classe Morta, destaque-se a A Invenção do Sr. Daguerre, objeto do espetáculo Wielopole, Wielopole (1980), mistura de câmera com metralhadora que se transformou em um dos símbolos máximos do teatro de Kantor.


Curiosamente, alguns anos antes de se tornar famoso mundo afora, Tadeusz Kantor participou, em 1967, da Bienal de São Paulo, apresentando uma série de pinturas chamadaEmballage, com a qual obteve o segundo lugar na categoria (a mostra à época era competitiva). Mesmo assim, seu nome passou desapercebido. Anos depois, quando já era impossível falar em teatro contemporâneo sem se referir a ele, a influência de sua obra chegaria aos palcos brasileiros pelas mãos, especialmente, de Antunes Filho e Gerald Thomas, como destacaram todas as matérias produzidas até agora sobre a exposição na grande imprensa. Posicionando-se sempre na vanguarda, Kantor não fugiu à regra, típica entre seus pares, de escrever manifestos. O mais famoso deles, chamado O Teatro da Morte, lançado na época de A Classe Morta, tornou-se, no Brasil, o título do volume que agrega seus escritos mais importantes, publicados em 2008 pela Editora Perspectiva em parceria com as Edições Sesc SP. Ler esses textos é interessante não só para acompanhar a trajetória do artista em termos conceituais (Teatro Informal, Teatro Zero, Teatro-Happening etc), mas também para compreender melhor o teatro realizado dos anos de 1970 para cá, na medida em que Kantor, mais do que um encenador de gênio, foi um grande teórico da cena. O nome O Teatro da Morte diz respeito, entre outras coisas, à enorme importância conferida por Kantor em seu trabalho à história da Polônia, com toda certeza o maior “saco de pancadas” da Europa, invadida, destruída e pilhada inúmeras vezes por tropas estrangeiras. Conforme diz uma passagem do programa da exposição, a partir de A Classe Morta “[..] o teatro se tornou uma supermáquina por ele empregada em suas tentativas de recriar eventos passados”. Partindo desse pressuposto, Máquina Tadeusz Kantor seria uma viagem por entre as engrenagens de sua obra e por entre os escombros de sua terra natal, ao término da qual não se sai indiferente.

Fonte: www.issocompensa.com

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