Há uma diferencia entre o tolo mau e o tolo inocente. Como tolo mau, que tem uma estranha mistura com o próprio mal, temos Pável Fiódorovich Smerdiakov, em Os Irmãos Karamazov. Pável estava cheio de complexos, era desprezível, rancoroso e sempre andava pelas esquinas, fazendo-se de desentendido, concebendo obscuridades secretas. E também temos Lennie, em Ratos e Homens. Lennie, acidentalmente, acabou matando uma menina. Mas Lennie era muito forte e muito burro, e o assassinato foi acidental. Os personagens dos romances de Jim Thompson também têm algo rompido em sua cabeça. São uns garotões tranquilos, que passam despercebidos e, de repente, explodem. Carregam uma bomba relógio por dentro. De certa forma também são tolos, ou se passam por. Se lembrarmos de Os Idiotas (The Idioterne, 1998) de Lars von Trier, temos uma clara concepção cultural destas pessoas. O tolo, o idiota, primordial, adâmico, é totalmente inocente, como uma criança crescida; tudo é perdoado.