O RETRATO DE DORIAN GRAY


Dorian Gray. Idade avançada em corpo de menino. Corpo sem registros – sem marcas do tempo ou dos prazeres vividos. Corpo pleno de gozo, que não se submete à falta. Indivíduo sem culpa, que não precisa se responsabilizar e arcar com seus atos por ter um Outro disponível para fazê-lo.
Ainda adolescente, Dorian teve seu retrato pintado por Basil Hallward, artista em ascensão que se sentiu atraído pela beleza incomum e personalidade fascinante do jovem. Mesmo temendo ser “absorvido inteiramente”, ele estabelece com o rapaz uma “relação de dependência” a ponto de só se sentir feliz se o visse diariamente. Apaixonado, Basil adulou, mimou e elogiou o jovem e, através do retrato que lhe pintou (sua obra-prima), revelou-lhe sua beleza.


O momento dessa revelação, ou desse desvelamento foi vivido por Dorian com um grande prazer:
Uma luz jubilosa lampejou-lhe nos olhos, como se nesse momento se visse pela primeira vez... A noção de sua beleza dominava-o como uma revelação. Nunca a tivera antes dessa hora (p.33).

Percebe-se no júbilo do rapaz algo semelhante ao vivido por uma criança no “estágio do espelho”, ao experimentar pela primeira vez a vivência de um corpo unificado. Joël Dor (1990), ao rever esta conceituação lacaniana, afirma que
O “estágio do espelho” ordena-se essencialmente a partir de uma experiência de identificação fundamental, durante a qual a criança faz a conquista da imagem de seu próprio corpo. A identificação primordial da criança com esta imagem irá promover a estruturação do “Eu”, terminando com essa vivência psíquica singular que Lacan designa como fantasma do corpo esfacelado. ... (p.79) (grifos do autor).


Dorian teve em Basil uma espécie de mãe amorosa que, à medida que lhe pintava um retrato, lhe libidinizava o corpo com mimos e elogios, até o momento em que, através de sua imagem refletida na obra recém-acabada, o rapaz toma, pela primeira vez, consciência de sua beleza e passa pela confirmação de sua identidade. Vivência legitimada pelo pintor que, ao apresentá-lo a si próprio, agia como se lhe dissesse: Esse é você aos meus olhos! Foi um momento de alegria e júbilo vivido como “um sentimento de completude subjetiva”, como nos diz Valas (2001, p.48), mas também de alienação, no qual um lugar imaginário lhe era designado – lugar da beleza sem defeitos. Dorian adquire a consciência de sua identidade mas também de sua finitude, não seria bonito para sempre, pois “à medida que lhe fosse formando a alma, a vida lhe deformaria o corpo. Ele ficaria horrível, hediondo, grotesco” (p.34). Ser belo se tornou para ele a condição de ser.

Como Narciso, ele apaixonou-se por sua imagem, apegou-se e, sofrendo com a revelação de que aquilo que lhe dava tanto prazer já nascera perdido, era inapreensível, formulou um desejo insensato de que o retrato sofresse as marcas do tempo e da vida em lugar de seu corpo. Assim ele se esquivou da perda, da responsabilidade, da castração, deixando tais questões para seu outro eu, o do retrato, que a cada atuação perversa ou sinal de velhice, passou a apresentar no corpo pintado, uma marca que denunciava a intenção do gesto, que gritava o gozo vivido. A vergonha, a repugnância e a moralidade, segundo Freud (1905), “barreiras mentais contra excessos sexuais”, deixaram de funcionar, foram nele abolidas para o estabelecimento do império dos sentidos, e o quadro tornou-se o retrato de sua alma; ao mirá-lo (o que fazia sempre num misto de horror e prazer), Dorian sabia o que se passava, mesmo quando tentava esconder de si as verdadeiras intenções de seus atos.
Podemos pensar que ele operava a castração no outro do retrato? Na realidade Dorian, horrorizado, escondeu o quadro dos olhos de outras pessoas quando este sofreu sua primeira marca, trancando-o a sete chaves. Teve pavor de não se ver e de não ser visto inteiro, belo, mas castrado. Queria ser modelo de beleza e elegância e o retrato poderia atrapalhar-lhe o projeto. Esse passou a ser o seu segredo e aquilo que era motivo de horror tornou-se também, aos poucos, motivo de gozo e gozação. A partir de seu primeiro “pecado” empenhou-se em gozar a vida, desvendando-lhe os segredos e a gozar o retrato, depositário de sua angústia. Tornou-se cindido entre o Belo e o Feio.


Lorde Henry Wotton, o grande perverso dessa estória, desempenhou papel decisivo nessa trama. Como dizia seu amigo Basil, era cínico, mas só “de pose”, nunca dizia uma coisa moral, mas também nunca praticava uma ação repreensível, pelo menos que viesse a público. Eloqüente, divertia-se com as emoções alheias e comprazia-se em disseminar sua teoria do prazer absoluto. Viu em Dorian a candura da mocidade e a pureza de uma alma apaixonada. Fascinado, dispôs-se a “influenciá-lo” sem dar ouvidos aos rogos de Basil de que “não estragasse o rapaz”, “privando-o da criatura que dava encanto à sua arte”. Mas para Lorde Wotton, o seu prazer estava acima de sua amizade com Basil, e ele se dedicou, como dizia, a “emprestar” a sua alma ao rapaz, projetando nela o seu temperamento. Dedicou-se a moldá-lo de acordo com suas idéias, todas elas desprovidas de valores morais. Tentou ser para Dorian o que este havia sido para Basil, procurou dominá-lo e “atrair sua alma”. Foi bem-sucedido. Tornaram-se íntimos e o rapaz o ouvia fascinado – “como sob o efeito de um encantamento” (p.46) – a pregar um novo hedonismo através da busca de sensações novas.

Assim, alienado, totalmente apagado pelo brilho do Outro, Dorian tornou-se atuador das idéias de Lorde Wotton. A voz desse amigo, escutada mesmo em sua ausência (p.53), impressionava-o e, como um Supereu, lhe trazia um imperativo de gozo. Como um grande desmoralizador, o lorde conseguira abrir as portas de um mundo sem moral e sem culpa, onde tudo valia para viver novas sensações, para manter a beleza e a juventude.

Lorde Wotton despertou em Dorian a curiosidade de conhecer a vida, curiosidade essa que só aumentava à medida que era saciada. “Quanto mais sabia, mais desejava saber. Tinha apetites furiosos que, embora satisfeitos, se exacerbavam mais e mais” (p.112). Dessa forma ele se entregava a vícios e depravações, numa busca incessante do gozo absoluto, ...“enamorado de sua própria beleza, ... empenhado em corromper a sua própria alma” (p.112), tendo no lorde uma testemunha vibrante que o incentivava a ir sempre além, a não mudar nunca.

Dorian não desejava, ele gozava um gozo desmedido, sem limites. Diferente do prazer, que é uma sensação agradável diante da diminuição de tensão, o gozo se dá a partir do acúmulo excessivo desta, em que se misturam a embriaguez e a estranheza (Nasio, p. 40). Wotton, em seu gozo perverso, provoca a divisão e a angústia de Dorian ao profetizar-lhe, enquanto seu retrato era pintado por Basil, que sua beleza e juventude iriam com o tempo e que lhe restaria, na velhice, a lembrança amarga das vitórias do passado. Tais palavras, que deixaram o rapaz pensativo, foram ressignificadas por ele ao ver sua imagem refletida pelo retrato. Assim o júbilo se transformou em angústia, em desejo de morte. E, de certa forma, é a morte o que ele consegue através da cisão pois, alienado, deixou-se moldar pelo amigo que se empenhou, como um bom perverso, em fazê-lo gozar.

Dorian passou a acreditar, como profetizara Henry Wotton, no advento de um novo hedonismo que repeliria todo sistema, toda teoria que implicasse na renúncia à experiência passional. Para isso dedicou-se a fascinar, influenciar e corromper, com o objetivo de pesquisar e se entregar a novas sensações. Admirado por jovens que tinham nele um ideal a ser seguido, estabelecia com estes “assujeitos” relacionamentos que eram verdadeiras montagens perversas, nas quais os indivíduos perdiam totalmente as noções de “honra, bondade e decoro”.

O neurótico fantasia que o perverso tem um gozo a mais e, em função disso, se deixa prender às montagens, visando desfrutar um pouco desse gozo. Na história de Wilde, homens e mulheres se deixaram seduzir e influenciar por Dorian. Ele os tornou loucos pelo prazer sem limites, sem respeito. Sua amizade era fatal aos jovens e terminava ora em suicídio, fuga do país, em vícios, ora na sarjeta, de onde era difícil se recuperar. Após corrompê-los, deles se desinteressava, abandonava-os ou era por eles abandonado, deixando-os mergulhados em vergonha, arrependimento ou em um ódio profundo com sede de vingança. Mas Dorian não se sentia implicado e encontrava sempre uma forma de atribuir aos outros a sua parcela de responsabilidade, repetindo, de certa forma, sua relação com o retrato.

Nada tinha importância para ele além de seu gozo. Um gozo que tudo justificava, até o assassinato. Primeiro mata Basil, seu criador, que num excesso de ingenuidade e culpa tentou fazê-lo se ver em toda sua torpeza e a se responsabilizar por ela, ou seja, tentou trazê-lo à dimensão da culpa e da redenção. O resultado foi um acesso de fúria incon-trolável e, num ato insano, Dorian o atacou a golpes de faca calando-o para sempre. Morte que não foi sentida pois, aos seus olhos, Basil era “responsável pelo que sua vida tinha de bom e de mau” porque ele pintara o “retrato que o desgraçara”. Doía-lhe mais a “morte em vida de sua alma”.

Mais tarde, após quase ter sido morto por um de seus vários inimigos, ele resolveu mudar, resolveu ser bom. Tentou assim sua primeira boa ação – deixou de corromper uma jovem ingênua que se apaixonara por ele –, mas acabou por se convencer, ao se olhar no retrato, de que tal desejo de mudança não passara de simulação, não passara de hipocrisia, de vaidade, era o desejo de sensações novas que o levara a experimentar a renúncia. O retrato, a essa altura uma monstruosidade, já não o divertia e causava-lhe pânico pensar na possibilidade de que fosse descoberto por alguém. Além disso, ao desvendar-lhe os pecados, servia-lhe de admoestador. Atormentado, em busca de paz, num último ato desesperado, Dorian esfaqueia o retrato – numa tentativa de romper o pacto – e morre assumindo, enfim, no real de seu corpo, aquelas que eram as suas marcas. Eliminar a única forma de consciência que ele pudera ter na vida trouxe-lhe a morte, pois essa consciência da qual ele se ria, não deixou de ser uma defesa contra a psicose.

Ler Dorian Gray à luz da Psicanálise foi um exercício fascinante mas difícil, pois, se por um lado ele se entrega à “lei do gozo” como um perverso, por outro lado, nega a existência da falta, cinde-se em bom e mau e mantém “uma identificação imaginária com o falo” como um psicótico. Para Joël Dor (1991), “o psicótico tem um certo conhecimento da castração. Mas trata-se de um conhecimento que o psicótico refuta, para ele mesmo, a ser seu sujeito” (p.148). Nessa negação da falta (não quero perder a beleza, não quero perder a mocidade), Dorian provoca uma cisão em seu eu no qual, para manter um lado bom, nega o mau projetando-o massivamente no retrato.

Isso me leva a pensar a perversão em Dorian Gray como uma tentativa desesperada de defesa contra a irrupção da psicose. No momento da aquisição de sua imagem corporal, pairou sobre ele a ameaça da castração – ele ganhou alguma coisa que já lhe veio perdida. Momento de extrema angústia no qual ele cinde-se: um lado mergulha no horror trazido pela falha do simbólico que, invadido pelo real, fica reduzido a uma imagem monstruosa; o outro lado, por meio de uma Père-version, apresenta uma versão do pai que o protege contra a falência de seu ser de sujeito, mantendo-o, mesmo que pela via do gozo, em contato com a realidade. É este o acordo que ele faz com o destino, incentivado por um perverso que gozava ao fazê-lo gozar.

No final, ao romper o acordo, Dorian acredita poder fazer uma escolha importante, que tinha em sua base uma negação radical: uma vida nova, pura, em que pudesse ser só bom, uma vida em que “a beleza não fosse apenas uma máscara” e “a mocidade, uma zombaria”. Alucinado, ele não se dá conta de que o Outro que o horrorizava era ele mesmo e que não poderia se livrar dele sem morrer. A maldade era o seu outro eu. Assim, ao destruí-lo, destrói a si próprio. Se num surto ele negou, num susto ele morreu.

Morto, Dorian Gray traz ao mundo um ser desconhecido por portar, enfim, as insígnias da castração. O seu fascínio perdido advinha-lhe do brilho de uma imagem perfeita, sem mácula, que o identificara em vida. Foram-lhe os dedos e ficaram-lhe os anéis e um retrato maravilhoso de um jovem no apogeu de sua mocidade e beleza... Objetos que tanto prezou em vida, mas que não pôde levar na morte.

Por: Maria Carolina Bellico Fonseca

Bibliografia
DOR, J. Introdução à leitura de Lacan – o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. 203p.
DOR, J. Estrutura e perversões. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. 187 p.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), p. 123-254. ESB, v. VII, Rio de Janeiro: Imago, 1969.
NASIO, J.-D. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. 171p.
VALAS, P. As dimensões do gozo – do mito à deriva do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 116 p.
WILDE, O. O retrato de Dorian Gray (texto integral). São Paulo: Martim Cloret, 2002. 190 p.

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