RIVER - 1ª TEMPORADA



O investigador John River é um detetive bem-sucedido nos quadros da polícia inglesa: cumpre religiosamente o dever repassado, alcança elevados índices de resolução de crimes e usufrui da admiração dos colegas de corporação. Mas um recente trauma relacionado à parceira de anos de batida nas ruas o atira em um labirinto mental, marcado por confusão e vergonha, e torna público um comportamento escondido sob uma vida de introspecção e reserva afetiva - o agente veterano tem o costume de reagir e travar conversas com pessoas inexistentes. 
A fronteira da sanidade, envolvida em embalagem de thriller policial, é por onde se aventura a série River (2015), protagonizada pelo ator Stellan Skarsgard (Os vingadores) e recém-disponibilizada na Netflix.


O seriado de curta duração, com apenas seis capítulos, flerta com elementos de tramas bem conhecidas do cinema, como o diálogo com mortos de O sexto sentido (1999) e a conversa com seres humanos imaginários de Uma mente brilhante (2001). Mas a interlocução com o invisível em River escapa a questões espiritualistas ou à simplificação sobre como o problema interfere em uma trajetória profissional irretocável. A esquizofrenia do policial - distúrbio pelo qual um indivíduo constrói realidades paralelas - enfrenta o senso comum e indaga por que soam como anormais formas de viver distintas de padrões socialmente toleráveis.


Na série, as investigações policiais servem como instrumento para John explorar a própria mente. Ele extrai das visões diárias o contraponto à personalidade e dicas práticas sobre como proceder no cotidiano pessoal e profissional. 


As incursões psicológicas abarcam deslocamentos temporais, com diálogos travados com personagens de outras épocas, ou circunstanciais, com o contato imaginário entre investigador e envolvidos nos inquéritos em andamento, sobretudo aqueles na condição de vítimas. Por trás das alucinações, no entanto, um aspecto benéfico, singelo e ignorado no comportamento tido como problemático: a capacidade de desenvolver empatia e usá-la para solucionar as investigações ou mesmo ajudar pessoas de carne e osso.


A complexidade cresce frente aos efeitos maléficos da esquizofrenia na intimidade do policial. Solitário, com emoções reprimidas, ele se filia às ilusões para sobrepor a dificuldade de se relacionar socialmente. E projeta nas pessoas do mundo inventado a reflexão sobre como a própria vida está travada pelo isolamento ao qual se confinou. 



O exame da ambiguidade mental do detetive John River, a partir de sutilezas inerentes ao êxito de uma investigação sobre crimes (e pessoas), faz a série transcender o drama policial para se tornar uma leitura provocativa da condição humana.

Por: Tiago Barbosa

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