INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


O sonho de um filme que tratasse de questões da relação homem-máquina nasceu há anos, com Stanley Kubrick, diretor e roteirista de grandes filmes como 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968). A.I. foi idealizado pelo cineasta com base em um conto do escritor Brian Aldiss, de 1969, intitulado Superbrinquedos duram o verão todo (Supertoys Last All Summer Long). Kubrick trabalhou cerca de 20 anos nesse projeto, que não chegou a sair do papel, pois o diretor tinha dúvidas se conseguiria material tecnológico suficiente para realizar o filme. Com sua morte, em 1999, coube a Steven Spielberg a responsabilidade de concretizar o projeto a partir do que ambos haviam discutido.


     
A história de A.I. Inteligência Artificial se passa num futuro indeterminado, quando a terra havia sofrido grandes transformações ambientais, devido às conseqüências do efeito estufa. Para lidar com esse desastre ambiental, humanos criam um novo tipo de computador com uma inteligência artificial incrível: os mecas, robôs independentes, conscientes de sua existência. Assim, a Terra fica dividida entre os orgas (seres orgânicos/humanos) e os mecas (seres mecânicos/robôs). Existem vários tipos de mecas, produzidos com as mais diferentes finalidades, mecas babás, mecas empregados, e até mecas amantes para satisfazer os desejos das mulheres. Contudo, todos eles têm uma característica em comum: a de servir aos seres humanos como “escravos”, incondicionalmente.


           
O filme A.I., assim como outros grandes filmes de ficção cientifica que retratam a relação homem-máquina, revela um pensamento quase que generalizado nessas obras, a de que os homens, ao criarem artefatos tecnológicos, sentem ao mesmo tempo uma mistura de prazer e medo. Prazer por realizar obra comparada à criação “divina” e, ao mesmo tempo, medo, principalmente de serem substituídos por tal obra, ou mesmo de que a “criatura” se volte contra o “criador”.


           
Será mesmo que um dia a humanidade poderá ser substituída pela tecnologia? Durante o filme percebemos claramente a “rejeição” do homem pela máquina, já que os orgas são completamente contra a “artificialização” da vida do homem. Não admitem que a sociedade “trate” robôs como “humanos”. Segundo os orgas, essas ações servem apenas para prejudicar a relação do homem em sociedade. Noma (1998, p.147) nos lembra que “os sujeitos do século XX têm suas razões para desconfiar e para temer a ciência, haja visto as experiências com a bomba atômica, com os gases, com as armas e artefatos desenvolvidos para a guerra...” Mas se a tecnologia nasceu da necessidade do homem, não será então o homem quem deverá estabelecer limites a essa tecnologia?
           
Hoje podemos dizer que a tecnologia não é somente uma necessidade, mas algo natural à vida do homem, pois faz parte de seu cotidiano. TV, rádio, celular, computador, mp3, laptop... é mesmo quase impossível pensar nossas vidas sem a tecnologia. Alimentos transgênicos, clones de animais, inseminações artificiais, afinal de contas não é preciso mais “amar” para que se tenha um filho. Que repercussões podem advir de mudanças tão grandiosas? O que acontecerá conosco se continuarmos avançando da forma como estamos?
           
Afinal, quando nos tornamos escravos dessa tecnologia? Existem pessoas que passam horas na frente do computador, ou mesmo trocando mensagens pelo celular, o famoso sms. Conversas virtuais, encontros virtuais, relacionamentos virtuais,msn, blog, orkut, chat. Porque as pessoas preferem esse tipo de contato? Todos nós, ao nos relacionarmos com outras pessoas passamos por diferentes situações, sofrimentos, desentendimentos. No entanto, esses relacionamentos é que nos fazem amadurecer, crescer como pessoa, como cidadão. Por outro lado, o homem “virtual”, numa tentativa de não sofrer, de não errar, de não se frustrar ou frustrar o “outro”, renuncia ao contato humano e social, pela facilidade que encontra em ser não o que é, mas o que “sonhou” ser.
  
       
No filme, a Cybertronics Manufacturing, empresa que domina a criação de mecas, resolve projetar um robô que seja capaz de amar, um robô com sonhos e sentimentos iguais aos de seres humanos. Liderados pelo cientista Robby (William Hurt), o meca David (Haley Joel Osment) é desenvolvido, lembrando a criação de Adão e Eva, "programados" para amar o seu criador. O meca-filho tem a função de garantir um amor incondicional aos seus “pais”: Monica (Frances O’Connor) e Henry (Sam Robards), funcionário da empresa fabricante. David é acionado para "amar" quando Mônica verbaliza uma lista de sete palavras, previamente planejadas e constantes do manual de instruções: cirro, Sócrates, partícula, decibel, furacão, tulipa e golfinho.


           
Se a grande questão, inicialmente destacada no filme, referia-se à capacidade de um meca amar um orga, agora a situação se inverte: será um humano capaz de amar um meca? Ao criar um robô-filho que tivesse a capacidade de amar, o cientista abriu vários precedentes, afinal, quem ficaria responsável por amar aquela “criança”? Qual a responsabilidade dos pais sobre esse “filho artificial”? Humanos seriam capazes de amar um robô? Mas o que chama a atenção é que o cientista, ao idealizar David, pensou numa característica que o tornaria único: David seria capaz de amar e sonhar. E David sonha, faz planos, projeta realizações. E o mais importante, busca realizá-los sem ser programado para fazê-lo.


         
Estruturado como um conto de fadas, A.I. situa a ação de seus personagens entre a fantasia mais pura e o medo de crescer, de deixar de ser criança e perder o amor dos pais, permeado pela insegurança de nossa inserção no mundo adulto, pela necessidade da busca por uma identidade própria. Ao final de sua jornada, o “herói” vai emergir “humanizado”, a "humanização" do menino-robô é representada no final quando ele “adormece” e "morre" junto com a "mãe". Simbolicamente, ao “morrer”, ele se torna ser humano, já que morrer é uma característica humana. 


           
A visão distópica de A.I. inclui o desfecho profetizado por Gigolo Joe, “Nós sofremos pelo erro deles, porque, quando o fim chegar, tudo que restará seremos nós”, as máquinas sobrevivem aos seres orgânicos. Quando David é resgatado do fundo do mar, depois de dois mil anos de espera, o homem é uma espécie extinta. O mundo está povoado por mecas altamente desenvolvidos, que fazem escavações para descobrir suas origens. Ao final, David “torna-se a memória permanente da raça humana”, paradoxalmente, a prova da capacidade dos homens fica registrada na memória de um ser robótico, o resgate de sua memória sinaliza não a sua evolução, mas o processo de sua extinção.
            

O filme, além de nos trazer questionamentos sobre essa relação tão polêmica e tão complexa que é a do homem com a máquina, nos deixa uma grande lição, a de que nós, humanos, temos capacidade, maior do que qualquer artefato tecnológico: somos capazes de amar! Sonhar, planejar, enfim, nos emocionar. Grandes qualidades dos seres humanos.

           

De acordo com Noma (1998, p.145), filmes como A.I. servem de alerta para o fato de que “a adesão, a aceitação cega, sem questionamentos, dos produtos da ciência e da tecnologia pode levar à morte, à desordem e à destruição”. O homem do mundo globalizado não tem mais tempo, falta-lhe tempo para passear, para comprar, para se relacionar, e nessa ânsia pelo tempo, ou melhor, por “agilizar” o seu tempo, busca nas mais diferentes possibilidades tecnológicas tornar sua vida cada dia mais prática e, conseqüentemente, mais “artificial”, muitas vezes tornando-se “escravo” destes recursos.



Autoras:



Suelen Fernanda Machado – Pedagoga e Assessora Pedagógica da CRTE de Campo Mourão.
Amélia Kimiko Noma – Professora Dra. da UEM – Universidade Estadual de Maringá.
Referência

NOMA, Amélia Kimiko. Visualidades da vida urbanaMetropolis e Blade Runner. São Paulo, 1998. Tese (Doutorado em História Social)-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Blogger Widget