CÓPIA FIEL

  


As relações entre original e cópia em arte têm provocado acaloradas discussões desde pelo menos o Renascimento. Até obras consagradas, como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, já tiveram sua autenticidade e, portanto, seu valor questionado. Esta polêmica, que aparentemente interessa apenas aos teóricos da arte, serve como ponto de partida para Cópia Fiel (Copie Conforme), mais um belo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami.

Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Gosto de Cereja (1997), e do prêmio especial do júri no Festival de Veneza por O Vento nos Levará (1999), Kiarostami foi um dos responsáveis pela popularização do cinema iraniano no Ocidente nos últimos anos. Em seu primeiro filme europeu, tira o foco do seu país e usa relações amorosas para fazer uma bela homenagem ao cinema.

Um escritor inglês, James Miller (William Shimell) está na Toscana, Itália, para lançar um livro em que discute o valor da cópia de obras de arte. Uma galerista francesa, Elle (Juliette Binoche) comparece ao lançamento, mas não pode ficar porque seu filho adolescente a força a sair. E é o menino, Julien (Adrian Moore), que percebe o interesse dela não no livro, mas no autor. Sob pretexto de pedir autógrafos, Ellearranja um encontro com James e acaba convidando-o a passar o domingo num vilarejo próximo a Florença para mostrar-lhe uma “cópia original” de uma pintura renascentista.


Num pequeno restaurante, James conta-lhe como teve a ideia para o livro que acaba de publicar e uma aparente coincidência os aproxima e os afasta ao mesmo tempo. Quando a dona do restaurante pensa que formam um casal, Elle não conta a verdade; pelo contrário, cria uma história sobre um casamento de quinze anos, no momento em crise. James embarca na fantasia e, de repente, não se pode mais distinguir realidade de encenação.

Valendo-se de fragmentos de memória, Elle questiona o relacionamento dos dois, lançando James (e o espectador, diga-se de passagem) em uma montanha-russa emocional. Sensações e sentimentos são (re)vividos de modo tão intenso, que o escritor, agora transformado em marido e pai desatento e ausente, parece crer em toda aquela ficção. Em sua discussão, eles passam do inglês ao francês ao italiano de modo natural, reforçando a impressão de que tudo se trata apenas de uma farsa. A precisão dos detalhes, porém, como levar James ao quarto da pequena pensão onde quinze anos antes eles haviam passado sua lua-de-mel, convence de que é tudo verdade.


Um grande trunfo de Cópia Fiel é a presença de Juliette Binoche, não por acaso vencedora do prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes de 2010. No melhor de sua forma, a atriz francesa domina o filme, transformando cada fala e cada gesto em pistas para irmos construindo a intrincada narrativa, e impondo um desafio interpretativo ao barítono inglês William Shimell, em sua estreia no cinema, no qual ele geralmente é bem-sucedido.

As locações perfeitas, os enquadramentos precisos, os movimentos de câmera seguros e os diálogos ágeis dão ao filme uma fluidez que cativa o espectador e o conduz por uma narrativa que, de outra forma, seria às vezes encarada como esquizofrênica. Alguns truques interessantes, como o momento em que Elle olha diretamente para a câmera – o que contraria os cânones do cinema clássico, reforçam a sensação de que Kiarostami sabe exatamente o que está fazendo, e é puro cinema.


A cópia de uma obra de arte possui o mesmo valor que a obra original. O fato do produto não ser autêntico não implica em sua desvalorização. Eis a polêmica tese defendida pelo professor James Miller em seu novo livro. Após a apresentação do exemplar, ele conhece a francesa Elle (Juliette Binoche), e ambos passam a tarde juntos. O encontro não poderia ser mais inusitado, pois eles forjam um relacionamento de 15 anos e inventam situações críveis no cotidiano de um casal comum.

O embarque na experiência cinematográfica de Cópia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, não é usual. As dúvidas permeiam a mente do espectador, pois apesar de jamais ser confusa, a obra tem múltiplas camadas, e o tom ambíguo impera. Afinal: Por que apesar de se conheceram há pouco tempo Elle e James tornaram-se tão íntimos de forma abrupta? O que os leva a esse comportamento? Ao lançar discussões sobre a valorização (ou não) de uma obra de arte não autêntica e ao mesmo tempo promover um encontro baseado no jogo de cena, na interpretação, poderia esta ser uma maneira de aludir ao próprio cinema, pura metalinguagem. Ou não?


Além das variadas possibilidades de interpretação do sentido da narrativa, o cinema de Kiarostami, que também é roteirista, apresenta notório zelo estético, verificado nos belíssimos planos próximos dos personagens na mesa do restaurante, que os mostram como se estivessem olhando e traduzindo a mensagem para o espectador, e na fotografia marcada por cores sóbrias que nada destaca além da complexidade dos protagonistas.

Não há como falar dos protagonistas sem mencionar a perfeita interpretação da dupla William Shimel e Juliette Binoche (premiada em Cannes pelo papel), que garantem sutileza e exaspero aos personagens em níveis adequados conforme cada situação. Em certas passagens, perpassa no longa o tom naturalista (representação autêntica da realidade). Ao conversar com James sobre fatos da vida doméstica, uma mulher com um bebê entra no plano, Elle elogia o bebê e imediatamente volta a conversar com o escritor. O naturalismo da sequência é similar ao do excelente Antes do Pôr do Sol (2004).

O resultado interpretativo na fruição artística de uma obra de arte, seja ela original ou cópia, é subjetivo. Cada pessoa garante um sentido ao produto. Cópia fiel é um exercício de metalinguagem, não é um filme óbvio e o sentido conclusivo não é entregue de bandeja ao espectador. Com suas qualidades técnicas e o encadeamento narrativo sólido e complexo, o filme é uma obra de arte que merece ser contemplada.

Ficha Técnica
Título Original: Copie Conforme
Duração: 106 min
País: França, Itália, Bélgica
Ano: 2010
Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Adrian Moore, Angelo Barbagallo

Por: Gilson Carvalho e Bruno Mendes


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