MINORITY REPORT: A NOVA LEI


EM 1865, Júlio Verne contou a história de três astronautas que saem da Terra rumo à Lua. Ele previu o efeito da falta de gravidade e até o tamanho da cabine dos viajantes. Mais de 100 anos depois, a Apollo 11 chegou lá. Nos anos 1980, William Gibson cantou a bola do “ciberespaço” bem antes de você fazer suas primeiras pesquisas no site Cadê?. Arthur C. Clarke, H.G. Wells e Ray Bradbury também engrossam a lista de autores de ficção científica que previram inovações tecnológicas e sociais que, décadas depois, passaram a fazer parte do mundo real. O conto de Phillip K. Dick que inspirou o filme Minority Report: A Nova Lei faz uma previsão bem ousada.

Imagina só a situação: em 2054, John Anderton (Tom Cruise) é um agente da Precrime, uma divisão da polícia que usa o poder de três mutantes paranormais conhecidos como Precogs, que enxergam o futuro. Com acesso às visões, a polícia consegue prender criminosos antes mesmo que eles cometam os crimes. Desde que o sistema começou a funcionar em Washington, mais de mil crimes foram evitados e o número de assassinatos foi reduzido a zero. Parece o mundo perfeito. Mas, claro, não é.
Logo no primeiro ato, vemos a equipe de John Anderton em ação e não sobram dúvidas: o sistema é infalível. Tom Cruise salvou o dia. Aí surge Danny Witwer (Colin Farrell), um agente do Departamento de Justiça dos EUA responsável por fazer uma auditoria do sistema Precrime antes que ele seja expandido para todo o território nacional. Witwer entra em cena meio arrogante e bate de frente com Anderton. Para o agente do governo, prender futuros criminosos (que, na verdade, ainda não quebraram regra alguma) é brincar de Deus. Até esse momento, você tem todos os motivos do mundo para estar a favor de Anderton e achar Witwer um idiota.

Mas, a partir do primeiro ponto de virada, acontece a primeira grande transformação do filme. Os Precogs preveem um assassinato que vai acontecer dentro de 36 horas. E o assassino será o próprio Anderton. Desconfiado de que alguém está tentando sabotar seu trabalho e desmoralizar o Precrime, John Anderton descobre o “minority report”, fenômeno que acontece quando a previsão de um dos três Precogs difere muito da visão dos outros dois. Para que o sistema funcione bem, essa previsão da “minoria” é comumente descartada. Aí a coisa fica tensa: se uma das previsões diz que um crime nunca será cometido, as prisões executadas pelo Precrime soam ainda mais injustas. Quando a ficha de Anderton cai, ele percebe também que é possível enganar o sistema se você sabe bem como ele funciona.
De herói a alvo, o protagonista deixa a superfície do mundo, onde as telas dos computadores são controladas por mãos em movimente, e mergulha no underground, onde vai se esconder para não ser pego pelo sistema que ele mesmo ajudou a consolidar. A ambientação visual do submundo o é quase tão impressionante quanto a dos carros flutuantes e dos monitores modernos. A estética larga o preciosismo futurístico e flerta com o noir, com o sujo. A sombra toma conta. O impasse ético previsto por Witwer dá espaço para discussões filosóficas ainda mais profundas.

Desse ponto em diante, o filme de Spielberg começa a se afastar do conto de Phillip K. Dick. Mas a discussão mais importante: quem vigia os vigilantes? Como confiar num sistema cheio de falhas e brechas? De alguma maneira, Anderton acredita que Agatha, a Precog que mais tem previsões classificadas como “minority report”, pode ter as respostas para suas perguntas. Depois de acessar uma de suas intrigantes visões, Anderton a sequestra.
Minority Report é surpreendente, mas não chocante. Cada reviravolta é planejada para que você já imagine o que está por vir. É fácil dividir o filme em blocos, com elementos estéticos e ritmos próprios, e logo você compreende que cada um deles vai terminar num novo ponto de virada. É fácil se identificar com John Anderton. Assim como ele, você tem dificuldade de confiar em qualquer um. É fácil entender seus motivos e perceber suas angústias. Ponto para Spielberg, cuja direção didática entrega uma história limpa, com poucos furos, mas que falha ao entregar plot twists complexos.
Depois de 140 minutos, o filme chega ao fim com uma solução otimista, bem diferente do desfecho do conto de Phillip K. Dick. Mas o questionamento das autoridades, a questão de poder, a ética no combate ao crime e o problema dos direitos humanos vão continuar ecoando enquanto existir na sociedade esse famigerado conceito de “sistema”. Ao final, você provavelmente vai torcer para que, desta vez, a fantasia não vire realidade nas próximas décadas. Assim como os Precogs, a ficção científica também faz umas previsões meio perigosas
Por: Otavio Cohen
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