A FEITICEIRA DA GUERRA


Existe a ideia do que perdemos, do que o homem perdeu em algum momento de sua história mítica. Existe a ideia de que os deuses foram para outra parte e nos deixaram sozinhos nesta terra. Quando em algum momento estiveram juntos, o homem foi feliz. Era o paraíso. Existe um lugar paradisíaco. Para substituir esta perda, geralmente o homem procura na religião, no amor, nas felicidades materiais. Mas a palavra chave aqui é busca. O homem busca essa felicidade perdida e, em certas ocasiões, se perde buscando essa felicidade. 

Geralmente acredita-se que há um momento da vida em que algo desse contato entre os deuses e os homens sobrevive, um tempo da vida do homem em que tudo flui de outra maneira, um mundo, digamos, mágico, onde prevalece o pensamento mágico, um mundo que segue a doutrina animista, um mundo sem fronteiras entre este e o outro, mas, sobretudo, um mundo onde tudo é permeável e possível: esse mundo é, como sabemos, a infância. A infância é nosso momento de felicidade suprema, dentro dela somos inocentes, absolutamente inocentes, ingênuos e felizes. A infância é entendida como um poder sobre a vida, que pode voltar como adulto, um identificador para subsistir sobre toda crueldade do mundo. Mas o que acontece quando a infância é arrancada? O que acontece quando, por exemplo, na África, as crianças são transformadas em soldados, em assassinos terríveis? Há ainda, talvez, nesta criança que foi privada de seu mundo, um resto desta magia? O filme canadense A Feiticeira da Guerra (Rebelle, 2012), do diretor Kim Nguyen, parece explorar este afiado e difícil tema. Komona (Rachel Mwanza) é uma garota de quatorze anos que está grávida e que conta para seu bebê que ainda não nasceu a história de sua vida. Perceba que significativo, seu bebê que ainda nem nasceu, que está em seu ventre, esse ser que está no paraíso de todos os paraísos, é quem recebe a história, a terrível história que sua mãe tem vivido. Tudo começou quando um dia as hienas da guerra a obrigaram a matar a tiros os seus pais. E ela teve que obedecer, porque se não fizesse eles atirariam nela, e então seus pais morreriam horrivelmente a facadas. A partir de então, conheceremos uma grande lista de infortúnios, ou melhor, tragédias que atravessarão a alma da pequena Komona. Poderíamos pensar até aqui que o filme não nos mostrará mais que uma série de perversidades, de momentos horríveis da vida de uma garota de qualquer país africano em guerra. No entanto, o diretor segue por caminhos a que nos referimos anteriormente: Komona não se perde totalmente, Komona guarda um pedaço de sua infância e com ela sobrevive a tudo ao longo de sua jornada infernal. A magia está em Komona, alguns, com espírito civilizatório, poderiam pensar que esta magia desapareceu na ignorância dos africanos, que essa magia pertence a um passado ignorante de superstições e atraso. Talvez, de certa maneira, Nguyen lança sua voz contra essa opinião: talvez esse pensamento mágico, essa maneira de ver o mundo não deveria se perder totalmente. Talvez haja certos respeitos, certos olhares místicos ou religiosos que mantêm certo equilíbrio entre os homens. Talvez a perda disso fez com que o caos tomasse o mundo destes homens. Ou talvez esse seja apenas um fio para Nguyen, e o que na verdade lhe interessa é ir além, ir até a alma da infância, mergulhar neste lugar das inocências, onde também habita a magia, o primeiro amor, os fantasmas premonitórios, a própria vida. Komona não se perdeu porque nela habita uma luz, essa mesma luz que agora carrega em seu ventre, e a quem Komona conta toda a força de sua profunda experiência. Ela fala do mundo mau, mas o mundo mau não a matou, porque nada matou sua inocência.


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